Posts de Março, 2006

Psisss!

Março 31, 2006
Pecou silenciosamente. Pecou pelo seu silêncio. Calou. Nada declarou. Nada mais disse, nem lhe foi perguntado. Enfrentou o pior dos seus dias calado. Entrou quieto e saiu mudo. Abriu a boca como se fosse falar, mas a voz não veio, o som lhe morreu no meio do caminho, sentiu que não podia dizer, não poderia falar aquilo que deveria gritar ao mundo. O pior crime era sofrer calado por aquilo tudo que não deveria sofrer; pagar pelos pecados que não cometera. Emudeceu. Calou. Perdeu a sua voz. As palavras iam morrendo, uma após a outra, na sua garganta. Os pecados do silêncio. Os pecados cometidos em silêncio. Os pecados cometidos por causa do silêncio. Só o silêncio. Silêncio. Psiss!

Janelas

Março 31, 2006
Janelas são aberturas para o mundo, onde a vida entra e sai. Janelas rompem o nosso isolamento, são hiatos das paredes. São vias de duas mãos onde olhares vem e vão, cruzam e, às vezes, colidem. É quando um olhar olha um olhar a olhar pela janela. Olhares medem, examinam, avaliam. Olhares imaginam, sonham, profetizam.

Janelas são, antes de tudo, não seres, o nada exaltado em toda a sua importância. O todo que passa a ser uma possibilidade pelo não ser. Ah! Poéticas janelas! Comunicação dos mundos, público invadindo o íntimo; íntimo se expondo ao mundo. Janelas belas, delas, que nelas perpassam toda a cor dos olhos.

Somos perfeitamente imperfeitos

Março 31, 2006
Estava escrevendo ontem os “Dez Mandamentos do Bem Blogar” em um outro blog. E, por estranho que possa parecer, embora sabendo que estava errando, eu dizia que nem sempre cumpria com todos os mandamentos. Assim somos todos nós: perfeitamente imperfeitos. Nós erramos, e não podemos dizer que em todas as vezes que erramos nós não sabíamos do que nosso erro. Muitas vezes o erro é consciente, um pecado proposital. Isso faz parte da nossa natureza humana, que nos fez imperfeitos.

A nossa atitude diante dos nossos e dos erros dos outros é que faz toda a diferença. Diante dos erros dos outros temos obrigação de ser, senão condescentes, ao menos humanos, no sentido de reconhecer que os erros acontecem e de que todos são passíveis de errar. Acho que não é necessário fazer aqui citações bíblicas e outras que dizem da importância do perdão. Diante dos nossos erros temos que adotar uma postura crítica, mas sempre positiva, que funciona no sentido de identificar os erros e de procurar não mais cometê-los.

A perfeição, se é que ela existe, continua sendo uma qualidade mais próxima das máquinas.

A criatividade exige paixão

Março 31, 2006
Talvez eu precise, para ser justo com quem trabalha com arte, com tarefas criativas, falar mais daquilo que eu conheço, daquilo que eu vivo, que no meu caso é a escrita, ao falar em criatividade ou arte generalizo aquilo que se aplica mais a mim, ou, quem sabe, a um grupo. O que eu afirmo é que aqueles que trabalham com tarefas criativas precisam da paixão, do amor, do desamor, da ilusão, da desilusão.

Não existe nada pior para a criatividade do que a paz total dos sentimentos, do que ter os sentimentos dormentes.

Não estou especificando o objeto da paixão, nem advogando o sofrimento como forma única de inspiração criativa, todos sabem que o grande amor, a felicidade sempre foi uma grande fonte de inspiração. Mas vejam, por exemplo, o grande mestre da pintura Pablo Picasso, fica bem mais fácil entender o seu comportamento instável no lado sentimental a partir dessa perspectiva.

Alguns poderiam alegar que as relações de dependencia não são bem essas. Ou seja, que ter um espírito inquieto é uma das bases da criatividade, e que isso acaba se refletindo na sua vida sentimental. Não importa, porque a análise parte de que é necessária essa inquietude sentimental para a criatividade, a forma como ela se manifesta ou se ela vem antes ou depois é irrelevante.

Esse é um interessante paradigma, quando você está em completa paz, sua veia criativa tende a morrer. Quando você tem o espírito agitado e conturbado é o momento de maior criatividade. Qual dos dois você preferiria?

Essas convenções, esses descontos…

Março 30, 2006
Viver é conceder, conceder até demais, às vezes. Concedemos descontos para tudo, descontos para todos, parecemos um grande magazine em época de liquidação, em época de mudança de estação. Estou usando um plural, evitando personalizar o assunto, mas ele diz respeito diretamente a mim – e a todos os que agem dessa forma. Sou de uma família que preza os valores familiares, em nome desses valores vou abrindo mão de outros – acho que tão importantes ou mais do que os familiares. Abro mão da minha alegria, abro mão da minha felicidade; abro mão da minha realização como pessoa, da minha maneira de pensar. Viro quase um nada despersonalizado em nome da felicidade dos outros, em nome dos outros.

Não vivo esse conflito vinte e quatro horas por dia, sou uma pessoa inteligente, posso fugir para dentro da minha imaginação a qualquer hora que eu quiser, tenho caminhos, esconderijos, espaços, cantos e caminhos que sou eu conheço. Vivo neste meu mundo isolado do outro mundo. Para quem está acostumado com a internet, fica mais fácil de entender isso que eu digo, que vivo num mundo semelhante a esse virtual, um mundo que criei só para mim.

E vou vivendo desse modo, por quanto tempo mais? Sinceramente não sei dizer. Só sei dizer que esse meu viver não alcançará a eternidade.

Acontecimentos

Março 30, 2006
Quebraram irregularmente o sigilo bancário do caseiro Francenildo, o que acabou ocasionando a mudança de Ministro da Fazenda, saiu Palocci e entra Mantega, foi lido o relatório da CPMI dos Correios, que incriminou todo mundo e, como se isso fosse possível, ao mesmo tempo, ninguém – pois que ninguém acredita que vá sobrar alguma coisa para alguém nesse paraíso da impunidade -, nosso astronauta foi para o espaço com a sua passagem de 20 milhões de dólares, a baiana Mara ganhou o BBB6, o famoso Picolé de Chuchu é o candidato do PSDB à presidência da república, Garotinho conseguiu fazer mais uma molecagem, derrubando Rigotto e se tornando o candidato à presidência pelo PMDB – ninguém sabe até quando – com a metade dos votos e uma matemática muito da malandra.

E tudo isso aconteceu nesses dez dias, desde o meu último post nesse Bandeide, em que eu falava que o PT se defendia das acusações dizendo que os outros “faziam a mesma coisa”. Hoje ouvi a notícia de que o tal de Paulo Okamoto está fugindo dos oficiais de justiça que tentam intimá-lo, partindo-se do conhecido princípio de “quem não deve, não teme”, esse é um bom indício de como deve andar a consciência do homem que paga todas as contas do presidente porque é bonzinho.

Escrevi num outro blog sobre a impossibilidade de esperar-se que petistas admitam seus erros, não é do feitio, nem da educação de suas hostes. Eles preferem a tática de que todos fazem a “mesma coisa”. Do ponto de vista ético, significa o mesmo que matar alguém e dizer que os presídios estão cheios de gente que fizeram a “mesma coisa”. Sabe quando vão se emendar desse jeito?

44 Milhões Lançados ao Espaço

Março 30, 2006

Quarenta e cinco anos depois que Yuri Gagarin fez seu vôo inaugural no espaço, o nosso astronauta conseguiu pegar uma carona – uma carona cara, que custou o preço de 44 milhões de reais – na nave russa Soyuz.

Hoje, dia 30 de março de 2006, deverá partir da base de lançamento no Casaquistão para um passeio de oito dias até a estação espacial Mir. Nosso astronauta é um cara bonachão e simpático, o ten-cel Pontes, ele me lembra o vigilante rodoviário, rsrsrs.

Eu gostaria de dizer que este vôo representa muito para nós, que é importante tecnologicamente e blá, blá, blá. Mas é só blá, blá, blá, mesmo, e campanha política para o nosso já abatido e combalido presidente, porque não há interesse nenhum nessa viagem para os brasileiros.

Em suma, mais dinheiro bom, nosso rico dinheirinho dos impostos, dinheiro que nos custa muito para ganhar jogado fora, “lançado ao espaço” para que Lulinha possa tirar uma casquinha, um proveito político.

Pisante

Março 30, 2006
Essa era uma giria que nós – nós quem? Cara-pálida – usávamos nos anos oitenta para denominar os sapatos, “Pisante”. Hoje não sei mais se significa a mesma coisa. Aqui nesse blog é o título. Embora eu ache que vou adotar um sapato como a imagem que identificará o blog, porque não?

Sempre que tem uma “arte” – e lembro da minha mãe perguntando: Ronaldo? Você já está fazendo alguma arte? – tem que ter um “artista”. Minha mãe, sim, ela é uma artista, desenha e pinta como poucos, eu sou um “artista”, assim com aspas, que faz essas “artes” diferentes, queria ter um talento especial, mas resolvi brincar com as letras, no meu dizer: “a língua não sofrerá tanto com minhas poucas palavras”.

Depois, prometo, acabarei atualizando o meu profile do blogger.

O que vou escrever aqui agora?

Março 30, 2006
Não deveria escrever nada, em cumprimento ao Primeiro mandamento da usabilidade – mandamento criado e decretado por mim mesmo! – “Se não tens nada a dizer, faz o que manda a lógica, não diga!”.

Já que entramos nessa linha, vamos em frente. Segundo mandamento da usabilidade – segundo as leis de Ronaldo, note que nem eu mesmo cumpro a todos! – “Não seja um anônimo no seu blog. Como você quer ter credibilidade sendo um anônimo?”

Terceiro: Não existe isso de mundo virtual e mundo real. Atrás das páginas, dos blogs, estão pessoas reais. “Coloque uma foto sua no seu blog, sempre é bom saber com quem estamos conversando”.

Quarto: Quando fores escrever sobre alguma coisa, a primeira coisa que deves fazer é dizer sobre o quê vais escrever, nem todos tem tempo a perder, ou seja, “faça com que os seus títulos sejam claros e informativos“.

Quinto: “Escolha com critério as tags que identificarâo o texto, colocar um monte de palavras só desvaloriza o valor das tags“. Tags ajudam a localizar os conteúdos úteis.

Sexto: “Escreva para ensinar alguma coisa, mas seja simpático ao fazê-lo, ninguém tem a obrigação de ser um nerd da informática como você“.

Sétimo: “Cuidado com a linguagem e contra quem você escreve. A internet costuma ter uma memória longeva. A pessoa que você está ofendendo hoje pode vir a ser seu futuro patrão amanhã“.

Oitavo: “Tenha cuidado com o português ao escrever; muito embora o conteúdo do seu texto seja técnico, um texto com erros crassos de português não inspira muita confiança no seu leitor“.

Nono: “Seja claro ao explicar e evite os tecnicismos; não presuma que todos os que vão ler seu artigo são técnicos“.

Décimo: “Seja franco ao comentar, mas mantenha a cordialidade, ninguém ganha nada ridicularizando os outros“.

Sem culpa

Março 30, 2006
Não se exige outro comportamento de um bom petista: morrer atirando. Nunca foi possível discutir ou argumentar com um petista na época em que eles “ainda” detinham o monopólio da moral e dos bons costumes; agora que a máscara caiu, continua sendo impossível discutir com qualquer um deles. Isso é coisa de anos de treinamento, coisa de quem aprendeu a defender as mais indefensáveis das idéias com habilidade e destreza ímpares – adjetivos que substituem, nesse caso, outro mais ofensivo, embora mais próprio: “cara de pau”.

Quem consegue defender Fidel e seu regime com a maior tranquilidade, sem que o rosto denuncie o menor sinal ou qualquer reação de desconforto – e nenhuma consciência pesada depois – não têm a menor dificuldade em defender teses tais como “recursos não contabilizados”, “uso de caixa dois”, “coisas que todos fazem”, “ou nós estávamos acompanhamos a movimentação de capital absurda na conta do caseiro”.

Não se espere, pois, nenhum ato de contrição, nenhum “mea culpa” de um bom petista, não por implicância ou outro motivo qualquer; eles só não sabem o que é culpa, porque – embora possa parecer contraditório – mesmo quando estão errados, eles estão certos. Isso se dá porque todo petista é um bem intencionado no projeto maior, no objetivo final da causa, e já que, como qualquer um sabe, os fins justificam plenamente os meios, não há porque sentir culpa de nada.