Posts de Junho, 2006

Marcas que incomodam

Junho 29, 2006
Essas marcas e recordes que apareceram este ano na seleção brasileira só incomodam. Goleador, jogador com o maior número de partidas, com maior número de vitórias, e até um zagueiro que tenta jogar o mundial sem cometer uma falta. Essa última então, contrariam a frase “zagueiro que se preza não ganha o Belfort Duarte” pode por todo o trabalho a perder. No último jogo contra Gana foi visível a preocupação de Lúcio em não cometer a falta.

E se em algum lance acontecer a necessidade de que a falta seja cometida para impedir um gol? Certamente o adversário fará o gol para que não se prejudique o objetivo máximo do atleta, que não é ganhar o título, mas completar a competição sem o cometimento de faltas. Isso é só um exemplo, mas não há como deixar de sentir que esse tipo de ideal secundário acaba atrapalhando o principal que é a conquista do título.

Ah! Nosso técnico não engana ninguém querendo encobrir o fato de que o time joga mal com o argumento – falacioso – de que “ganhar é show”. Ninguém está exigindo que o time dê shows, mas só que jogue bem. Até agora, em algumas situações jogamos mal e, apesar disso, ganhamos, mas até quando?

Mulheres x Homens

Junho 29, 2006
Não gosto desses programas sexistas, sejam eles de orientação masculina ou feminina. Não estou falando, é claro!, dos programas que agradam naturalmente mais a um dos sexos pela sua temática, como é o caso dos programas de moda, culinária, esportes, etc. Falo dos programas dirigidos especificamente a um dos sexos.

Os programas masculinos nessa linha tendem a ser grotescos, confundindo masculinidade com grosseria, estupidez e pornografia, definitivamente não me agradam; os femininos passam o tempo todo falando num tema único: os homens. Não que as mulheres devessem evitar o tema, mas dentro do tema abordado o assunto também é único: o comportamento indevido – sempre! – dos homens.

Leio a notícia de que o programa do canal de tv a cabo GNT, Saia Justa vai trocar a integrante Luana Piovani por Ana Carolina e Maitê Proença. Embora o programa se enquadre num desses sexistas, comento a notícia louvando a saída da chata e pernóstica Luana Piovani, ela que nunca acrescentou nada ao programa. Já vai tarde!

Qual será a intenção de colocar Ana Carolina num programa sexista? Todos sabem que ela não é o tipo de pessoa que possa ser enquadrada muito bem em opções sexuais fixas. Deixa pra lá, tudo em nome do circo…

Ganhar é show

Junho 28, 2006
A frase é de Parreira e encerra toda a sua filosofia: “Ganhar é show”. Futebol não é arte, não é espetáculo, não é diversão. Esse é o futebol de Parreira, que ganha um bom dinheiro ministrando “palestras motivacionais” para platéias do mundo dos negócios onde só existe um fim: ganhar. Por isso que “ganhar é show”. Se ganhar é show, se ganhar é a finalidade, os meios não importam, ou os fins justificam os meios.

Essa contaminação não é só do futebol, mas de todos os esportes onde o aspecto comercial se tornou dominante, ninguém mais joga nos dias de hoje visando algum ideal competitivo ou esportivo, na competição é fundamental vencer porque só os vencedores vendem. Os atletas passaram a ser outdoors ambulantes que vendem de tudo. Um atleta da qualidade de um Ronaldinho Gaúcho não tem preço porque é alguém que consegue o quase impossível: ser competitivo mantendo a arte do jogo.

E foi o que assistimos nesse último jogo da nossa seleção: o canarinho mecânico de Parreira batendo inapelavelmente a alegria e a leveza da seleção de Gana. Gana acha que jogar futebol é show. Pobres ganeses, ainda não acordaram para a realidade do “ganhar é show”.

Foi uma vitória, não diria sensacional, mas empresarial. Futebol não é mais um esporte, futebol virou uma guerra comercial. O futebol movimenta milhões e, como qualquer coisa que movimenta milhões, ninguém está lá para brincar.

Parreira tem razão: “Ganhar é show”, ganhar é o show.

Ficar de papo…

Junho 23, 2006
De papo, mas não necessariamente para o ar, que também não é uma atividade das mais desprezíveis, ficar, quem sabe?, batendo um papo legal com alguém bem mais legal ainda, sobre qualquer assunto que não pertença aquela plêiade de assuntos polêmicos. Plêiade? Não… plêiade não entra em papo legal! Digamos… que não pertença aquela pá de assuntos polêmicos.

Sobre isso, sabe?, pensei em banir do meu blog este tipo de assunto. Isso! Não falar mais de assuntos problemáticos, como diz o Dada Maravilha, falar só sobre os solucionáticos. Esse é o nosso jeito, o jeito brasileiro de ser e de ver a vida, de preferência com um prato de picadinho e um copo de ceva gelada. Os problemas nacionais? Isso é lá com o planalto, sabe como é? Eles ganham prá isso…

Meu reino por uma descendência boa

Junho 23, 2006
Nosso pais é um gigante, em tudo! Do tamanho a diversidade, costumamos ser classificados como terceiro ou segundo mundo. Certo em parte. Numa grande parte de nós, na maioria. Mas temos uma classe A+ que vive nababescamente, vive como ou melhor do que o melhor dos mundos. Gente com direito a ilha, helicóptero e iate, e tudo o mais que é bom e que é do melhor.

Muita gente estranhou que algumas indústrias mundiais de artigos super refinados tinham filiais no Brasil. E só no Brasil. Simples comércio, vendiam mais aqui do que nas matrizes, ou do que no resto do mundo. Nossos ricos não são pão-duros, gastam bem, usam o dinheiro para ter acesso ao bom e ao melhor. Coisa de quem tem 100 mil pessoas com metade do PIB nacional. Os outros 179.900.000 que se lixem. Quem pode, pode, fazer o quê?

Cardume

Junho 23, 2006
Os peixes nadam em cardume como uma tática de defesa contra os predadores. O cardume, visto de longe, assume o aspecto de um único grande animal, assustando vários predadores.

Qualquer dos elementos do cardume, isolado, não tem a mínima chance contra qualquer predador, mas quanto integrado ao cardume passa a ter defesa contra a maioria deles. Não funciona contra todos os predadores, mas funciona contra a maioria.

Assim somos nós, assim é o povo, que isolado não tem a mínima chance de defesa contra os poderosos, contra o sistema, mas quando unidos, quando em cardume, consegue derrubar todos eles – eu disse todos eles!

Ao contrário dos peixes, o povo unido não tem predadores, contra si não há poder capaz de dominá-lo ou de impor a sua vontade. Não é por outra razão que os poderosos adotam a tática de “dividir para conquistar”. Ela não é uma tática explicita, não é aparente, mas adotada através de subterfúgios.

Os subterfúgicos são muitos: desviar a atenção do foco principal é uma delas; fazer crer que o fundamental não é fundamental; não dar meios para que o povo se una, não esclarecer, não formar o povo; manter o povo no obscurantismo. E o pior é que essa tática vem sendo adotada há séculos e funciona, e como!

Viva a seleção!

Aos que vierem depois de nós

Junho 23, 2006
Bertolt Brecht (Tradução de Manuel Bandeira)
Realmente, vivemos tempos muito sombrios! A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas denota insensibilidade. Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar. Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes. Pois implica silenciar tantos horrores!

Esse que cruza tranqüilamente a rua não poderá jamais ser encontrado pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda, Mas acreditai-me: é pura casualidade. Nada do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me. Por enquanto as coisas me correm bem (se a sorte me abandonar estou perdido). E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!” Mas como posso comer e beber, se ao faminto arrebato o que como, se o copo de água falta ao sedento? E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio. Os livros antigos nos falam da sabedoria: é quedar-se afastado das lutas do mundo e, sem temores, deixar correr o breve tempo. Mas evitar a violência, retribuir o mal com o bem, não satisfazer os desejos, antes esquecê-los é o que chamam sabedoria. E eu não posso fazê-lo.

Realmente, vivemos tempos sombrios. Para as cidades vim em tempos de desordem, quando reinava a fome. Misturei-me aos homens em tempos turbulentos e indignei-me com eles. Assim passou o tempo que me foi concedido na terra. Comi o meu pão em meio às batalhas. Deitei-me para dormir entre os assassinos. Do amor me ocupei descuidadamente e não tive paciência com a natureza. Assim passou o tempo que me foi concedido na terra. No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros. A palavra traiu-me ante o verdugo. Era muito pouco o que eu podia.

Mas os governantes se sentiam, sem mim, mais seguros, – espero. Assim passou o tempo que me foi concedido na terra. As forças eram escassas. E a meta achava-se muito distante. Pude divisá-la claramente, ainda quando parecia, para mim, inatingível. Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré em que perecemos, lembrai-vos também, quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais freqüentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência.

Aquecimento global

Junho 23, 2006

Estamos vivendo dias perigosas para a manutenção da vida no planeta. O perigo é o aquecimento global, a elevação da temperatura no planeta pela emissão de poluentes, pelo desmatamento, pela ganância, pelo frio sentimento de quem só pensa no lucro. Um frio que esquenta, uma contradição. Quanto mais frios e insensíveis são os que acham donos do mundo, mais quente se torna esse mundo sem donos.

Lembranças

Junho 23, 2006
Milongueiro tem essa terminação que lembra dinheiro. Mas só lembra, vivente. E se o nome traz a vaga lembrança do vil metal, o bolso sempre é fundo, sem fundos, quando não é furado, e a guaiaca, bem ensebada, só serve de enfeite e prá marcar onde ficaria a barriga do bagual. Mas não se avexe, que com isso já estamos mais do que acostumbrados nesta terra de Cabral. Desse chão sempre se tira algum sustento pra não virar imortal. E assim vou vivendo, eu e meu potro magro, que quando a prata aparece come aveia, e se não vem não se enleia, e quebra o galho num molhe de capim. Um dia isso serão favas contadas, histórias pra animar a meninada, quando essa miséria tiver um fim.

Perderemos, ou perderemos…

Junho 22, 2006
Eu escuto muito “porque se nós ganharmos” ou “se nós perdermos”. Nós quem? O país não joga, quem joga são os 23 jogadores que estão lá na Alemanha, os convocados. Eles ganharão, e ganharão sempre, ganhando ou perdendo sairão da copa com seus salários milionários. É claro que, se ganharem, ganharão ainda mais, mas para nós, para o povo não haverá vitória nem derrota, aliás, a tendência é a de que sempre acabemos por perder alguma coisa nesses jogos.

Se perdermos (veja a conjugação do verbo, nós), perderemos; se ganharmos, acabaremos perdendo porque a vitória será uma forma de aumentar o circo, de diminuir a atenção para os nossos reais problemas. Ainda mais com um povo que só pensa “naquilo” – futebol e novelas… bah!